O Projeto | O sertão vai virar mar e o mar virará sertão
O sertão vai virar mar e o mar virará sertão. Assim disse Antônio Conselheiro no povoado de Canudos. Assim propõe o projeto “O mar e o sertão, virá” que ganhou nova nomenclatura durante o processo de pesquisa: A Estrada de Um Por Dentro do Outro. Dois dramaturgos, um do sertão, o outro do litoral, se encontram para desenvolver um texto para teatro que abrace ambos os territórios. Que escute a ludicidade do povo de cada região, que provoque a imagética dos contrastes que se juntam.
Há uma distância entre o litoral e o sertão que é histórica, nem tanto a distância geográfica, mas a política e social. Historicamente a colonização inicia no litoral, desenvolvendo econômica, política e socialmente esse território, ficando o sertão relegado a um segundo plano. Com a globalização essas distâncias criam a ideia ilusória de haverem sido diminuídas, mas ainda há resquícios de um olhar colonizador que insiste em querer dizer que existe um muro entre esses territórios, que não é possível a sua aproximação.
O projeto “A Estrada de Um Por Dentro do Outro” nasce do desejo de intercâmbio entre as poéticas e estéticas desenvolvidas por Luiz Felipe Botelho, Recife, e Djaelton Quirino, Arcoverde. Ambos premiados e com textos montados no país e também no exterior. Contou com aportes das atrizes/pesquisadoras Caroline Arcoverde e Mônica Silva no levantamento e catalogação dos materiais pesquisados e desenvolvidos durante todo o projeto. As atrizes/pesquisadoras, uma de Arcoverde e outra do Recife respectivamente, acompanharam e contribuíram no desenvolvimento dos elementos dramáticos que resultaram no texto final.
O intercâmbio propôs que cada dramaturgo vivenciasse o território do outro, no sertão e no litoral. Um imergindo na paisagem dramática do outro, conhecer pessoas, ouvir histórias, degustar sabores. Esses foram os pontos de partida para a escrita conjunta de um texto inédito que une esses dois universos, míticos e místicos por natureza, buscando suas semelhanças e diferenças, e pontos de convergência, não só para a história criada, mas também para os artistas que a desenvolveram.
Após a etapa de pesquisas e vivências acerca dos territórios houve a escrita e catalogação das histórias, causos e impressões sobre as estadias. Posteriormente houve encontros para debates técnicos sobre as teorias dramatúrgicas e suas aplicações. Leituras e reflexões sobre Aristóteles, Bertolt Brecht, Augusto Boal, Jean-Pierre Ryngaert, e outros materiais teóricos serviram de aporte aos debates.
A leitura de textos escritos pelos dois dramaturgos foi uma fase importante do projeto. Pois cada leitura seguida de debates de ideias, contribuía para que um pudesse se aprofundar no universo poético do outro. E contribuía para que as pesquisadoras levantassem informações sobre a escrita e lógica de criação de cada um, elementos essenciais para o desenvolvimento do texto final.
Norteados pelas experiências práticas e teóricas, foi desenvolvido um argumento da história, contendo as personagens e as peripécias por elas vividas. Por fim, ocorreu o processo de escrita das cenas que foram compartilhadas em tempo real através de um aplicativo on-line de escrita. Os dramaturgos puderam acompanhar e revisar os processos um do outro.
A metodologia utilizada para a criação da dramaturgia levou em consideração o próprio desenvolvimento das fases e as possibilidades de mudança e adaptação que são inerentes aos processos criativos. Sem descaracterizar o tema inicialmente proposto, nem engessar os criadores.
A revisão do texto final, que aglutinou histórias dos dois dramaturgos em um único documento, foi realizada pelos dramaturgos e pelas pesquisadoras que acompanharam todas as etapas do processo. Este processo gerou um texto dramático em diálogo com o momento em que foi escrito, sem estar preso a ideia de produto “acabado”, ou vinculado às convenções de uma montagem cênica.
“A Estrada de Um Por Dentro do Outro” é um texto, mas poderia ser vários. Seguiu uma estrada, cheia de bifurcações, mas poderia, ter seguido outros caminhos, desvios e atalhos. Em suma, é um texto que se apresenta sem os acabamentos que talvez uma obra individual exigisse, neste caso o passeio é mais importante do que a chegada.
A culminância desejada de um texto para um dramaturgo é ver esse texto ganhar vida, para isso, foram realizadas duas sessões de leituras dramatizadas do texto feitas pelo grupo arcoverdense Teatro de Retalhos, parceiro dos dramaturgos. Uma leitura na cidade de Arcoverde e outra em Recife.
Assim, este projeto buscou provocar uma reflexão ativa, através da criação conjunta que respeite os seus criadores, como pares, os seus territórios, como únicos, e suas culturas como primordiais.
O projeto “A Estrada de Um Por Dentro do Outro” celebra encontros de duas regiões do estado de Pernambuco, duas gerações de dramaturgos, muitas histórias e uma certeza: é preciso compartilhar. Esperamos com esse projeto promover novos olhares para nossos territórios, para nossas identidades, para nossas histórias. Acreditando que não basta a falsa ideia de proximidade que a globalização nos apresenta, mas que é preciso se aproximar daquilo que realmente nos faz maiores, a arte.
